A elegância de uma década
Do momento em que conceitos tradicionais entram em desuso e a arte toma o curso dos valores descatáveis, me senti livre para mostrar aqui uma escolha que fiz, ainda criança, de guardar imagens, cenas, pessoas, músicas e palavras dentro de uma caixinha que criei num cantinho de mim, dentro de uma caixa maior, onde guardo tantos outros conceitos e valores.
Contidas, desde a década em que passei a minha mais tenra infância, trago clássicas lembranças, onde a estética, a beleza, a sensibilidade plástica do que era concebido pela arte atingiam o inconciente e talhavam a fomação intelectual de nossas mentes desavisadas.
De ainda muito pequena, guardo cenas como as da morte de John Kennedy, da nova Capital, dos soldados e tanques pelas ruas do Rio de Janeiro, do homem na Lua.
A de Sérgio Ricardo quebrando o violão ao ser vaiado no festival da canção, a ira de Caetano no “É proibido proibir”… Todas as cenas dos festivais estão guardadas, claras e intactas, dentro da minha caixinha.
Cinema, Dorothy, a janela batendo em sua cabeça e a fantasia surgindo como mágica em tecnicolor…Branca de Neve, …Tony Curtis e a Corrida do Século. Tudo na caixinha.
Guardo também Agostinho dos Santos, Elizete Cardoso, Nat King Cole.
Show do dia 7.
O lançamento do Ford Galaxie nos palcos da tv Record. No mesmo palco, Hebe Camargo, Cidinha Campos, Clodovil Hernandez e Denner.
A Jovem Guarda, que tive o privilégio de assistir no teatro da rua da Consolação, a grande festa no teatro Universal. Roberto, Erasmo e Wanderléia.
Disparada e A Banda empatadas. Vandré “pra não dizer que não falei das flores”.
Dois na Bossa. Elis e Jair.
Alaíde Costa, Wilson Simonal.
Nas ruas o Simca Chambord e no armário os sapatos da minha mãe, suas roupas, as luvas, as perucas. Os anos 60 foram um marco de elegância e glamour. Eu adorava andar com os sapatos da minha mãe.
Me lembro bem das tardes na Galeria Metrópole, das Lojas de departamentos, da escada rolante. E das férias pelas ruas de Copacabana.
Mas eu era bem pequena e fui acolhida pela emoção daquele tempo.
Da elegância, escolhi estas imagens pra selar.
Un homme et une femme – Claudine Longet (1966)